Entrevista com Lucas Zenha Antonino


Lucas Zenha Antonino tem 24 anos e está no sétimo período do curso de Geografia da PUC/Minas. Mesmo antes de se formar foi efetivado no estágio que fazia, e hoje trabalha como técnico do PCPR (Projeto de Combate à Pobreza Rural do Estado de Minas Gerais), além de ser monitor do colégio Dom Cabral, onde já foi professor substituto. No currículo desse jovem se encontram vários trabalhos de campo, feitos em âmbito profissional e acadêmico, que lhe possibilitaram conhecer de perto algumas tribos indígenas, comunidades que vivem isoladas, e integrantes do grupo MST. Confira agora uma entrevista com Lucas, que será dividida em duas partes. Entre os tópicos tratados estão a importância dos trabalhos etnográficos, o ensino da Geografia no Brasil, e as relações entre Antropologia e Jornalismo.

É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.Lucas Zenha à beira do rio São Francisco, no município de Pedras de Paria da Cruz

– Você já fez vários trabalhos entrelaçados com a Antropologia. Fale um pouco da relação entre essa ciência e a geografia. Os pontos em comum, os enriquecimentos que uma traz à outra.

A geografia, na realidade, é uma área que se relaciona com várias outras. Alguns geógrafos chegam a brincar que os profissionais dessa área sabem um pouco de muitos setores, caracterizando-a como generalista. Com a Antropologia, uma das relações se encontra nos trabalhos de campo. Os Antropólogos, ao estudarem o homem, têm de fazer essa atividade, que nós, Geógrafos, fazemos para analisar condições sócio-econômicas, e até mesmo para realizar planejamentos agrários. As duas áreas trocam enriquecimentos na medida em que os olhares desses profissionais, apesar de terem coisas em comum, têm também suas diferenças, oriunda de objetivos e formações distintas.

– Nos seus trabalhos de campo qual foi sua função e qual foi o papel do Antropólogo? Existem muitas diferenças no conteúdo e no modo de autuação desses dois profissionais?

Já fiz vários trabalhos de campo, e apenas um teve a participação de Antropólogo. Nessa ocasião, trabalhamos bastante juntos, mas o Antropólogo envolvido, por ser mais experiente do que eu, tinha uma percepção melhor para entender o comportamento, os hábitos dos indígenas. Nós dois nos ajudamos no estudo da comunidade, mas como disse, ele era o orientador principal do plano que visava observar a comunidade, em vários aspectos, que vão da história aos hábitos, dos valores ao comportamento.

– Você acredita que a formação acadêmica dos antropólogos e dos geógrafos são diferentes no sentido de tornar não recomendável que um desses profissionais faça trabalhos supostamente ligados a alçada do outro? Fale um pouco da formação acadêmica nesses dois setores.

Não conheço o curso de Antropologia profundamente para opinar. Pelos trabalhos que já fiz direta ou indiretamente com pessoas dessa área, sempre as julguei competentes para realizar as atividades para as quais estavam designadas. Na minha graduação tive Antropologia Cultural, que foi muito útil. Como falei, nas atividades que já presenciei Antropólogos e Geógrafos trabalhando em conjunto, os profissionais de ambas as áreas tinham capacidade para fazer as tarefas, que muitas vezes eram as mesmas, e quase sempre bem parecidas.

– Qual a importância dos trabalhos de campo? Que descobertas esse tipo de atividade te trouxe? Quais os aspectos que só podem ser apreendidos através desses trabalhos?

O importante desses trabalhos é a vivência direta. Algumas coisas só podem ser entendidas assim, e outras são melhor apreendidas dessa maneira. Conhecer hábitos, comportamentos, ver as pessoas e os locais de perto, é fundamental para vários trabalhos, para compreender o ser humano e os grupos.

– Fale um pouco de seus trabalhos de campo. Quais as curiosidades, os aspectos mais interessantes que você descobriu? Existem muitas diferenças entre os grupos com os quais você conviveu e a sociedade chamada de convencional? Quais são elas?

Os aspectos interessantes estão na própria visão de realidades diferentes do que estamos acostumados a ver. Os valores, os trabalhos, os hábitos, várias vezes estive em comunidades completamente diferentes da chamada sociedade convencional nesses aspectos. Comer a comida deles, vivenciar os rituais, as práticas de trabalho, tudo é enriquecedor, e às vezes, bem distinto. O MST, por exemplo, tem vários gritos e cantos que mostram na pele a questão da luta por melhores condições. Os índios quase sempre antes de iniciarem as conversas têm rituais para abençoar o local. Os Quilombolas possuem tradições antigas de agroecologia, como por exemplo, a não utilização de fertilizantes. Enfim, são muitas as peculiaridades, e entre os próprios grupos que já visitei são muitas as diferenças.

– Em temos de valores, hábitos, ética, comportamento e história, fale das características desses grupos.

Já visitei muitos grupos tidos como tradicionais. Uma coisa em comum a quase todos eles é a história de vida complicada, marcada pela pobreza. Outro aspecto que via bastante é a diferença com relação aos hábitos da nossa sociedade contemporânea. A simplicidade da vida desses indivíduos, que por exemplo, não costumam ter o forte apego a aparelhos eletrônicos, é um ponto nessa linha. Em termos de hábitos, de ética e de outras coisas, as características entre eles variam muito.

– Quais são as questões que você acredita que constroem o ser humano e as sociedades? Qual seria o papel da história, do convívio, do meio social, da Biologia e de outros aspectos? Como eles atual?

O seu humano e as sociedade são construídas, na minha opinião, pela união de todos esse fatores citados por você, que atuam em conjunto. Todos eles têm extrema importância.

– O ser humano de um modo geral tem muita dificuldade para lidar com o diferente. O entendimento entre grupos com hábitos e histórias díspares costuma ser bastante difícil. Como os grupos com os quais você conviveu vêem a “sociedade convencional”? Como eles acham que são vistos por ela? Há um sentimento de incompreensão? Como você acredita que o mundo “civilizado” enxerga essas pessoas e os grupos que vivem de maneiras distintas? Há uma empatia entre os grupos “marginalizados”?

De forma geral eles se sentem incompreendidos pela sociedade convencional, acreditando que a última os vê como pessoas atrasadas, e até mal-educadas. Alguns grupos têm certa hostilidade com pessoas de fora, o que passa por questões históricas, por sofrimentos passados por eles. Boa parte da sociedade convencional tem preconceitos contra índios e grupos que vivem de modo distinto, e não os conhece, não tem informações para julgá-los com o mínimo de conhecimento. A empatia entre os grupos chamados de minorias existe em alguns casos. Entre tribos indígenas, por exemplo, é muito comum um sentimento de amizade, de confraternização.

– Quais as diferenças entre esses grupos que você visitou e entre as experiências vividas? Os métodos utilizados foram diferentes? Como eles são decididos? Há muito espaço para improviso nesse sentido?

Existe um planejamento, mas ele agrega certa flexibilidade, inclusive, porque às vezes não sabemos como vamos ser recebidos. Quanto às experiências e aos métodos existem muitas coisas em comum, como por exemplo, um jeito de se comportar para passar aquela fase de desconfiança. No entanto, algumas diferenças na maneira de agir e nas experiências podem ocorrer, em função, entre outras coisas, dos hábitos peculiares de cada grupo.

– Como estudante de Geografia, como você acha que esse setor dessa ciência é tratado na Universidade, em termos quantitativos e qualitativos? A realidade vigente está muito distante do ideal? Como você acha que essa área deveria ser ensinada?

O trabalho de campo vai além da Universidade, que ensina algumas coisas, dá algumas oportunidades, mas deixa um pouco a desejar nesse aspecto. Em encontros de Geografia, seminários e coisas do tipo, quase sempre são feitos trabalhos de campo, o que é muito bom para nós. Para melhorar, um bom passo seria as escolas darem mais espaço para essa área.

– Como assistente, monitor e professor substituto você já trabalhou no ensino médio e no fundamental. Fale sobre o ensino da Geografia nas escolas em geral e naquelas que você trabalhou. Como é a divisão entre as diferentes áreas dessa ciência, em termos de quantidade e qualidade? Quais são os defeitos, os problemas, como deve ser esse ensino e o que deve ser feito para chegarmos lá? Há esperança?

A Geografia não é tratada, na maioria dos casos, com a importância que deveria, o que passa pelas instituições e pelos alunos. Uma das coisas que deveriam ser feitas para aperfeiçoar o ensino é o estabelecimento de relações entre aspectos globais e do cotidiano dos alunos, com o objetivo de melhorar o interesse e a compreensão dos estudantes. Quanto à divisão de áreas posso dizer que conteúdos diferentes são abordados. São tantos os setores da Geografia que fica difícil falar mais precisamente dessa distribuição de conteúdo. Em geral, pode-se afirmar que todos recebem alguma atenção.

– No que tange à quantidade e à qualidade do ensino da Geografia no ensino fundamental e no médio, nas áreas especifica que tratamos, que flertam com a Antropologia, qual é o cenário? Como ele deveria ser e como fazer para que haja melhora?

Essa parte da Geografia não é muita tratada nos colégios, recebendo pouca atenção, embora isso varie de acordo com a instituição e o professor. Seria importante dar mais espaço para essa área, pois é fundamental compreendermos o diferente, acabarmos com os preconceitos muitas vezes enraizados nos meninos, que já crescem ouvindo aquelas mesmas história e julgamentos errados.

– Você já fez trabalhos em Universidades fora de BH e já se informou sobre instituições de ensino superior estrangeiras? Quais as diferenças entre elas e as instituições mineiras, em todos os aspectos tratados por nós?

Entre as instituições mineiras vejo muitas semelhanças. Na verdade, acredito que o interesse e a dedicação do aluno são muito importantes e fazem diferença no proveito do curso. Com relação a instituições de outros estados posso falar que a USP e a federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, possuem estruturas e corpos docentes mais qualificados, investindo mais na formação do aluno. Em Santa Maria, por exemplo, a graduação dura quase sete anos. Quanto a instituições do exterior, digo que não as conheço com profundidade, mas por algumas leituras, acredito que França e Alemanha têm boas escolas.

– Como você acha que os jornalistas tratam e aplicam os ensinamentos e os métodos da Antropologia e da Geografia? Quais são as conseqüências disso? Como deveria ser a abordagem jornalística, e qual a importância das ciências citadas nessa área? Existem exceções em termos de qualidade no uso da Antropologia e da Geografia dentro do jornalismo?

Nunca estudei esse assunto a fundo, mas pelo o que vejo, o jornalismo trata e aplica muito mal essas áreas, o que gera más informações, intolerância e fomenta o preconceito. A abordagem tinha que ser mais cuidadosa, qualificada, tendo o critério de comparecer aos lugares, de conhecer culturas diferentes, pois essas ciências são importantíssimas para o real conhecimento do outro, do diferente. A única exceção que lembro de cabeça agora, quanto à qualidade da análise antropológica, é uma reportagem feita pela Rede Minas falando sobre índios, que ouviu especialistas, não caiu em clichês e se mostrou correta. Com certeza existem outras, mas agora só lembro dessa.

– Como a população vê e aplica essas ciências? Como ela absorve o trabalho jornalístico, que tem as características traçadas acima?

A população em geral não conhece essas ciências, não chegando a vê-las corretamente, nem a aplicá-las. Os preconceitos mencionados acima se vinculam a isso. Quanto à absorção do trabalho da imprensa, acredito que as pessoas engolem muito fácil o que é dito pelos veículos, o que contribui para um cenário de intolerância e desconhecimento.  

– Com a Internet e a crise financeira de empresas midiáticas, o número de pessoas que escreve sem comparecer aos lugares indicados aumentou. Quais as conseqüências disso? Como era essa questão antes da Internet?

Não sei muito sobre esse assunto, mas pelo o que converso com amigos jornalistas, o cenário já era ruim antes, e apenas piorou agora. As conseqüências se entrelaçam com o que já foi falado: desconhecimento, intolerância e por aí vai.

– A Antropologia e a Geografia deveriam ser melhor abordadas nos cursos de jornalismo? Como deveria ser essa interação entre áreas diversas? Em uma era estritamente técnica e voltada ao mercado, há possibilidade disso ser feito?

Não sei a respeito da possibilidade de ser feito, mas acredito que nas ciências humanas em geral deveria haver mais interação entre as áreas. O jornalista, o advogado não precisam ser mestres em Antropologia, mas essas ciências deveriam ser melhor abordadas nesses e em outros cursos, pela compreensão de um raciocínio, do homem, da sociedade.

– A imprensa tem enorme influência na sociedade, sendo chamada, inclusive, de quarto poder. Tendo em vista que ela fala sobre povos sem o estudo e o embasamento necessários, você acredita que esses equívocos podem motivar guerras?

Podem motivar guerra sim, embora conflitos em larga escala sejam complicados demais, e envolvam várias causas.

– Cite exemplos positivos e negativos do uso na imprensa da Antropologia e da Geografia. Você acredita que os equívocos mencionados ocorrem mais na abordagem de fatos ou em reportagens, artigos? Há diferenças nas conseqüências causadas pelo conteúdo factual e pelo opinativo? Quais são elas? Como melhorar em ambos os lados?

Exemplo positivo lembro daquele da reportagem da Rede Minas. Entre os negativos, um que sempre vem a minha mente é o modo como o MST é tratado. Já fiz trabalho etnográfico com eles. Existem problemas, críticas a serem feitas, mas colocá-los sempre como vândalos é um erro. Quanto às outras perguntas não posso responder, não pensei sobre o assunto, mas acredito que tanto conteúdos factuais quanto os opinativos tenham poder perante os leitores. As conseqüências deles dependem de outras variáveis.

– Como você acha que são os investimentos em Antropologia, em Geografia e em Etnologia, nas iniciativas pública e privada? Quais poderiam ser as melhoras?

Existem alguns investimentos, mas pela importância das áreas deveria haver mais.

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Lucas Zenha em Ouro Verde de Minas, onde visitou a comunidade Quilombola Água Preta de Cima, para trabalho etnográfico

Reporter Carlos Eduardo Doné

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