Entrevista com Flora Sousa Pidner

Aos 25 anos de idade, Flora Sousa Pidner dá aula de Geografia para a sétima série do ensino fundamental e para o primeiro ano do ensino médio, no Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte. Atualmente, além de lecionar em uma das mais respeitadas instituições de ensino da capital mineira, Flora está fazendo um mestrado em sua área, a Geografia. A seguir, confiram uma entrevista com essa jovem que, mesmo aos 25 anos, demonstra ser um nome promissor do campo que escolheu. Entre os temas estão o ensino da Geografia no Brasil, as ligações dessa ciência com a Antropologia e o papel da imprensa ao abordar esses campos do conhecimento.

– Fale um pouco das ligações entre Antropologia e Geografia. Qual a importância dos trabalhos etnográficos?

Historicamente, a ciência constitui um pilar da modernidade. Antes do tempo moderno não havia uma divisão do saber, além disso, a filosofia era o pilar do conhecimento ocidental. Algumas mudanças ocorreram na modernidade. Dentre elas, uma mudança significativa foi a criação do que denominamos ciência. Um dos paradigmas da ciência moderna é a sua fragmentação em disciplinas. Tal fragmentação pretende definir limites teóricos entre as disciplinas, fundamentados em um objeto e um método de estudo. Dessa forma, cada disciplina teria um objeto próprio e um método próprio de estudo, como se houvessem territórios dentro da ciência. Os cientistas que representam uma disciplina devem ficar enclausurados em seu território, sob o risco de serem considerados invasores, caso não respeitassem tal paradigma.

Já há uma literatura densa que aborda criticamente essa questão. Um dos argumentos críticos se refere à impossibilidade de se produzir conhecimento na ausência de contato entre as disciplinas e, mais do que isso, na ausência de diálogo entre os conhecimentos científicos e os não-científicos, chamados de saberes populares ou locais. A Geografia e a Antropologia estão inseridas nesse contexto. Desse modo, refletir sobre questões consideradas geográficas demanda uma reflexão integrada de outros temas, tais como os que são considerados antropológicos. Como discutir a produção do espaço sem trabalhar o viés etnográfico que compõe o espaço, que dá significados aos lugares, aos territórios, às regiões e até mesmo às cidades? Ao mesmo tempo, como produzir pesquisas etnográficas sem pensar a dimensão espacial que participa da vida social? Para mim, desconsiderar essa relação é uma forma de empobrecer a produção do saber.

– Como professora dos ensinos médio e fundamental, como você enxerga a abordagem nas escolas da área da Geografia que se vincula à Antropologia, aos trabalhos de campo?

Acredito que essa abordagem ainda ocorre de maneira superficial. Essa superficialidade também está presente nos livros didáticos de Geografia. Os temas proposto pelos programas de curso e pelos livros são, ainda, os temas tradicionais da Geografia, que não englobam questões antropológicas. Quando a Antropologia é abordada, é comum existir uma redução da antropologia aos temas indígenas. É claro que se trata de um tema de grande relevância, entretanto, não é o único que se refere a Antropologia nem o mais ou menos importante.

Algumas mudanças têm ocorrido, principalmente por parte de professores que valorizam o contato entre Geografia e Antropologia e ainda inserem as questões históricas em que essa relação se fundamenta. Entretanto, algumas questões burocráticas dificultam esse tipo de trabalho, sobretudo quando se refere aos trabalhos de campo. Dentre as questões burocráticas, acredito que o tempo, normalmente reduzido, das aulas de Geografia e a cobrança pelo cumprimento de um programa pré-estabelecido são as principais dificuldades encontradas pelos professores.

– Você acredita que a imprensa faz um bom trabalho aplicando a Geografia e a Antropologia em suas coberturas? Quais as conseqüências na sociedade do papel midiático nesse aspecto?

A mídia é um conceito amplo, que engloba uma infinidade de instrumentos, tanto de produção quanto de distribuição de informações. Desse modo, é importante não fazer uma colocação generalista.  Acredito que existem tratamentos extremamente pobres no que se refere à realidade social. Esse trabalho empobrecido está relacionado, sobretudo, ao tratamento unilateral das questões, focalizando uma única forma de ver o tema. Para exemplificar, é comum que ao lidar com as questões de um tema polêmico, que envolve conflitos, apenas um lado exponha as suas concepções, às vezes sendo os únicos a serem entrevistados. Tal tratamento é mais freqüente nos representantes da mídia que possuem uma maior influência na produção de opiniões da sociedade brasileira. Ou seja, a principal conseqüência na sociedade do papel midiático é o empobrecimento das opiniões, que são constituídas de forma unilateral e, assim, carregadas de preconceitos. Esse viés midiático acaba servindo à reprodução do que está estabelecido socialmente, ou seja, o status quo.

Como falar sobre um conflito de terras, por exemplo, focalizando o olhar do latifundiário? Tal conflito se relaciona a contextos históricos tal como a distribuição concentrada de terras no Brasil, a exploração econômica do trabalhador do campo, a marginalização social do negro e do índio, expulsos da terra, sua fonte de sobrevivência. Entretanto, os contextos históricos e sociais, assim como as questões antropológicas e geográficas envolvidas não são frequentemente abordadas. Para dar outro exemplo, já se torna comum entre os brasileiros a seguinte frase propagada pela mídia: “é muita terra para pouco índio”. Entretanto, não se considera as características etnográficas das nações indígenas, assim como não se vê um questionamento sobre os grandes latifúndios, que representam “muita terra para um branco e sua família”.

Para que não se faça uma generalização da mídia, é preciso dizer que é possível buscar outras fontes de informação que trazem outros olhares, outras concepções, outros tratamentos para a questão. A mídia não se reduz aos seus representantes com maior força econômica.

Série de entrevistas e relatórios: reporter Carlos Eduardo Doné

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