Baineiros, um povo das Gerais, e não das Minas

Baineiros

Mineiro é aquele que nasce e cresce nas Minas Gerais. Que apesar de serem muitas, como quis Guimarães Rosa, é, enfim, uma só. Um lugar uno.

Mas, por trás desta imagem homogênea do estado mineiro que conhecemos (a única) – envolta pelos símbolos geográficos das Minas e seus mares de montanhas, pelos signos das cidades históricas e auríferas das Minas Geratrizes, existe na porção ‘Gerais’ do nosso Estado, outra realidade. Um ‘entre-lugar’ chamado Norte Sertanejo.

Nele vive um personagem etnográfico possante, conhecido como Baianeiro.

Os Baineiros, habitantes do extremo norte de Minas Gerais, quase na divisa com Bahia, não se assumem mineiros. Mas, também não se identificam com os vizinhos baianos, com quem fazem fronteira. Eles, espécie de seres não-geográficos, bastardos geopoliticamente do estado mineiro, se intitulam, convictamente, como norte-mineiros, apenas. Apesar de serem designados, por convenção, como Baianeiros.

Vivem em um espaço social não reconhecido pela sociedade mineira e, também, em situação de margem. Não só de Minas com Bahia, mas também as margens sociais.

São quase personagens míticos, de tão relegados e esquecidos. Vivem nas áreas não-estruturadas do estado, na vastidão do território sertanejo, nos Gerais – quente e pastoril. Um lugar não reconhecido e enunciado pela história e discurso sobre Minas Gerais.

Possuem características culturais diferentes daquilo que se convencionou como cultura mineira.

Os baianos não os vêem como mineiros, e os mineiros, por sua vez, os julgam: baianos (pela característica nordetina).

Esta confusão de nomenclatura que parece ser somente um problema de ordem designativa transcende para questões antropológicas importantes, e nos obriga a repensarmos e re-engendrarmos nossa concepção sobre ‘Minas Gerais’ e suas representações limitadas e excludentes, que nos faz pensar que Minas são uma coisa só. E Não múltipla.

O Baianeiro e sua condição de margem na sociedade mineira é o emblema da profecia de Guimarães Rosa que já pregava que Minas Gerais são muitas. No mínimo oito. É a ‘Minas’ geratriz, do ouro; é a Mata cismontana, é o Sul, cafeeiro, de terra-roxa e colinas européias; é o Triângulo; o Oeste, fazendeiro e político; o Norte; o Centro, do vale do rio das Velhas, calcário, ameno e, o Noroeste, dos chapadões e dos campos-gerais.

Mas, Minas Gerais como é reconhecida, legitima somente as Minas Geratrizes, que tingem o nome do estado.

É perante esta realidade montanhosa, reluzente e portuguesa, que osbcurece todas as outras regiões do estado e suas peculiaridades geográficos e culturais, que os baianeiros, em uma espécie de exercício projetivo, não se vêem refletidos. Não se identificam frente a este universo mineiro-europeu, montanhoso e fértil. O baianeiro cerceado a seu espaço, isolado e esquecido, só descobre sua identidade quando se desloca para outras regiões, dentro ou fora do estado. Só entendem quem são quando vivenciam a realidade alheia e nela não vêem seu semelhante. Ou seja, um mineiro qualquer. Um baiano. Eles se vêem, diferentes, metade de um, metade de outro: Norte-mineiros.

No plano macro – no âmbito nacional -, os baianeiros, também se vêem excluídos, pois sua origem, sua etnia e seus hábitos culturais, embasados no signo do sertão, da mestiçagem e da cultura folclórica não são os tipos antropológicos ascendidos e legitimados pela sociedade de um modo geral. Os valores hegemônicos, que norteiam omodos operandi da sociedade brasileira, nos primórdios e atualmente – sempre foram produtos de uma formação cultural ocidental européia. Apesar, da nossa essência mestiça.

Os parâmetros que hoje temos como perfil etnográfico ideal, desprezou o não-branco, o selvagem. Privilegiou, recortou, impôs uma realidade estrangeira ao nosso território e a nossa cultura, que se perfez, depois, sincretista.

Os baianeiros, gente cafuza e do sertão, que se originou da miscigenação do negro fugido com o índio nos idos século XVII e XVIII, donos de culturalismos peculiares – são a antinomia da figura do navegador europeu, que no caso brasileiro, se concretizou na figura do homem litorâneo – bandeirante, desbravador. Letrado e próspero. Que propalou ao longo da nossa história os discursos e representações que hoje conhecemos, e podemos desmitificar.

É por causa do enraizamento deste discurso do colonizador – centro propagador de idéias – que foi possível incutir um pensamento dominante no imaginário social, que preza os valores do branco europeu e destituí, empobrese tudo que destoa do seu modelo.

O sertão é o oposto do litorâneo. O branco do preto. Do mestiço.

Se “às minas foram jogadas todas as luzes, por sua civilização vinculada ao ouro, por sua cultura urbana e por sua identidade tornada hegemônica; aos gerais e suas especificidades obscurecidas foram vinculadas à barbárie, à natureza e à poluição, pela mistura de culturas aí vivenciadas”¹. Portanto, os baianeiros são duplamente excluídos: entregues ás margens (tanto na esfera estadual como nacional).

Se aqui, lemos o estado de Minas Gerais, somente como um lugar “de montanhas escarpadas e vales férteis e profundos, de ínvios caminhos, eles se vêem nas chapadas estéreis, espaçadas, de amplos horizontes”, eles, vêem os Gerais – o sertão; seu ‘entre-lugar’: uma fronteira social indefinida no seu imaginário. Uma região mental entre Minas e Bahia.

Assim, o baianeiro ou norte-mineiro como eles preferem, vai vivendo . “Um sujeito, uma gente, que se quer inteira, mas que não se realiza como tal coletivamente”.

Por conseguinte, enunciar que não se é mineiro, nem baineiro, nem baiano e sim norte-mineiro, é uma tentativa de se reafirmar frente á marginalização que sofrem e a confusão que sentem no campo semântico á nivel de estado e país. Querem descobrir e definir de que Minas ou Gerais são, e serem respeitados por seu regionalismo distinto, seu lugar social.

¹João Batista de Almeida Costa

Reportagem: Bárbara Camargo


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: