A cultura religiosa dos bantos na cidade de Salvador e o sincretismo cultural brasileiro.

junho 18, 2009

Quando um grupo de pessoas, que partilham de valores culturais comuns, avaliam crenças e costumes diversos dos seus, a atitude mais freqüente – comumente designada de etnocêntrica – é a de considerar as crenças e os costumes alheios, a partir de noções, categorias e valores que são próprios ao seu grupo de origem. Essa forma de avaliar o outro, peculiar à visão de mundo etnocêntrica, caracteriza-se pela tomada irrefletida e imediata dos valores particulares, próprios a um contexto cultural específico, como parâmetro universalmente aplicável ao julgamento das crenças e costumes de quaisquer outras culturas.. Josefina Pimenta Lobato( texto “ O Etnocentrismo”) No Brasil a cultura africana sempre esteve presente em manifestações culturais, tendo em vista o hibridismo cultural que permeia a cultura brasileira. A manifestação religiosa para os povos que vieram da Africa para o Brasil, Haiti ou Cuba foi e ainda é a manifestação de resistência cultural mais legítima se compararmos com outras formas de expressão cultural desses povos. Como colocou a antropóloga Yêda Pessoa de Castro, em seu artigo – “Antropologia e lingüística nos estudos afro-brasileiros”- “ Se o maior ponto de resistência oferecido às culturas africanas transplantadas para o Novo Mundo se acha na religião, por ela ser o “focal point” dessas últimas culturas – como salientou Herskovits – nas sobrevivências e orientações religiosas preservadas pelos negros nas Américas, observa-se a persistência de um “corpus” lingüístico de origem africana como meio de transmissão simbólica dos seus valores religiosos.” Outra antropóloga que contribuiu para a progressão dos estudos dos bantos – povos que fazem parte de grupo lingüístico localizados principalmente na África subsaariana e que migraram para o Brasil nos tráficos negreiros – foi Nina Rodrigues que viveu na capital baiana- Salvador- entre os anos de 1890 e 1903 e desenvolveu seus estudos de antropologia afro-brasileira. Nina observou que no início do século XIX, com a proibição do tráfico negreiro decretada em 1830 ocorreu a intensificação do comércio entre- Salvador e a Baía de Benin – país da África Ocidental onde negros eram capturados pelos portugueses por volta do século XVII e vendidos em alguns países da América – Nina, por meio da pesquisa, viu que a maioria dos africanos na cidade de Salvador eram de origem nagô e iorubas muito em função desse eixo de comercialização de escravos. O candomblé, enquanto manifestação religiosa, foi um objeto interessante para Nina precisar a importância desse culto religioso para o sincretismo religioso e cultural brasileiro. Ainda, os cultos afro-brasileiros foram de grande importância para a preservação de algumas palavras e expressões oriundas da África. Apesar da transposição de contextos sociolingüísticos africanos para a realidade luso-brasileira, observe a colocação da antropóloga Yêda Pessoa : (…) “ Como ainda ocorrem casos de transferência de sentido do termo africano a um termo português já existente, o que não implica necessariamente no desaparecimento do primeiro, embora, neste caso, tratando-se de manter duas ou mais variedades(…). Este fato também ocorreu com a Igreja Católica Romana que realizava seus cultos em latim para várias línguas diferentes. O importante não era entender todo a missa em seu sentido literal, mas a “função conativa” que essas manifestações tinham para integrar culturas diferentes. Os povos bantos com as suas cantigas folclóricas quando se reuniam nos terreiros de candomblé para celebrarem sua cultura o aspecto conativo da mensagem era mais importante do que o referencial. É importante refletirmos como a diversidade da formação histórica e cultural brasileira enriquece nossas manifestações e os desenhos que contornam e dão forma para a cultura popular no Brasil. Desta maneira,a postura etnocêntrica não corresponde com o bojo da história de nossa país, antes, afirma preconceitos que emergem da falta de conhecimentos da população brasileira que teve suas raízes históricas balizadas por variadas culturas; mas, especificamente no caso da cidade de Salvador é inquestionável a contribuição da cultura africana e para o resto do Brasil também é só observarmos as manifestações folclóricas de influência africana: capoeira, maculêlê, ou as expressões religiosas afro-brasileiras como a : Ifá, limo-da- Costa, cão-da-costa, espada-de- Ogum entre outras. Essas expressões oriundas da África já tem termos em português como podemos perceber e fazem parte do nossa formação brasileira.

 

Reporter Tarsila Costa

Claudia Andujar e os Yanomani

junho 18, 2009

Claudia Andujar

Claudia Andujar

Claudia Andujar

Claudia Andujar

Claudia Andujar

Claudia Andujar é antes de ser fotografa, ser humano íntegro. Dedicou-se mais de 30 anos as causas indigenas dos Yanomani, e, foi conhecê-los por intermédio de uma pauta pedida por demanda pela revista Realidade. Andujar é brasileira naturalizada, embora tenha nascido na Suiça e vivido na Romênia no curso de sua vida. Em entrevista ao Fotosite ela fala: “eles [os Yanomani] são o sentido de minha vida”. Sua fotografia foge, porém, de qualquer formalidade técnica. Ao viver os índios, protegê-los dentro das jurisdições legais (que certamente eles desconhecem), dar a eles uma visibilidade humana formada na ótica de suas lentes e de sua alma, Andujar faz das imagens um subterfúgio lirico da fotografia antropológica, tão preocupada em retrarar “o etnográfico”. É única no sentido da causa – coloca o sentido de sua vida, como ela mesma diz, em sua interação com os indíginas, vida essa que diz não ser fácil.

Constituiu ainda a série “Sonhos”: uma apreensão fotográfica decorrente de temáticas onícas. Para tanto, Andujar faz sobreposição de negativos, atingindo um efeito fascinante e autêntico. É somente vivendo isto, fazendo disto o sentido das coisas que ela consegue captar além de um recorte cientificista. Parece saltar a essência de toda a etnia em suas imagens.

Os Yanomani são uma etnia amazônica de índias caçadores-agricultores; constituem um conjunto cultural e lingüístico composto de, pelo menos, quatro subgrupos adjacentes que falam línguas da mesma família (Yanomae,Yanõmami, SanimaNinam). No Brasil, a população deles é de 12. 795 pessoas repartidas em 228 comunidades. O primeiro contato, no Brasil, com o grupo foi na decada de 10. A partir da década de 40, no entanto, o estreitamento das relações levou diversas missões evengélicas e católicas à catequese daqueles indiginas. Nas décadas de 70 eles foram expostos a uma quantidade de obras faraônias nos limites de Roraima, fazendo com que epidemias dizimassem parte de sua população, ainda com sua imonologia ligada à floresta e não ao pressuposto “progresso” dos positivistas.

Não bastando, na década de noventa uma série de garimpeiros se instalaram às margens do Rio Branco. Totalizando 40.000 cabeças – quatro vezes mais o contingente populacional de toda a população Yanomani. Foram, como se sabe, parte do descaso do Estado em tempos de preconceito antropológico. São e, no Brasil, o indígena é tido como um ser estranho, diferente das ilhas Polinésias, por exemplo, onde eles são alvo de respeito.

E é da história mitigada e da crença em algo maior que toda essa pragmática que Andujar se recobre de humanidade a fazer suas pesquisas. Ficou por anos presidindo a comissão Yanomani, ficando, inclusive, iguais anos sem fotografar. Sua compulsão é longe de ser fotográfica ou filantrópica: Andujar é uma artista em sua plenitude dentro de uma acepção artística de ser social, humano e visceral.

Reporter Felipe Chimicatti

A situação dos Krenaks

junho 18, 2009

O povo indígena conhecido hoje como Krenak formou-se ao longo de um processo histórico marcado pelo caráter violento da expansão econômica sobre a região da margem esquerda do Rio Doce, localizada no município de Resplendor, região Leste de Minas Gerais. O território que ocupam hoje foi demarcado pelo governo em 1920, mas foi logo invadido por fazendeiros e posseiros, que lá permaneceram até 1997. Nessa época os índios fugiram para o Pankas, no Espírito Santo, outros para o lado do Kuparak, originalmente de densa mata atlântica, onde diversos grupos de ‘Botocudos’ – resistindo à colonização em outras zonas já ‘conquistadas’ pelos brancos – se abrigaram até meados do Século XIX.

Após uma longa trajetória de expulsões e dispersões de famílias por áreas indígenas em todo o país, quando a aldeia foi incendiada, mulheres e crianças fuziladas e muitos foram mortos a facão, os Krenak voltaram a tomar posse de uma área de aproximadamente 2.000ha. Lá eles desenvolvem até hoje suas atividades econômicas, passando por um momento de ‘intensificação cultural’ que visa o fortalecimento de seu projeto de autonomia.

Três famílias extensas compostas por membros de origens étnicas distintas conformam uma população de aproximadamente 32 famílias nucleares, que compreendem cerca de 180 indivíduos, divididos em três núcleos ou ‘aldeias’. Em decorrência de sua história de dispersão, há indivíduos Krenak dispersos em várias áreas indígenas, grande parte na Fazenda Guarani junto aos Pataxó no município de Carmésia, Minas Gerais, mas o grupo mais importante se situa no município de Vanuíre, São Paulo, juntamente com os Kaingang, na Área Indígena conhecida como ‘Tupã’.

O jornalista Marco Antônio Tavares Coelho procurou o líder da comunidade Krenak, Ailton Krenak para esclarecer algumas dúvidas sobre a questão dos Krenak hoje. Na entrevista concedida ao jornalista em setembro de 2008, Ailton Krenak dá seu posicionamento sobre a questão deste grupo étnico tão perseguido ao longo da história.

M. A. T. C. – Como você vê o problema do relacionamento dos brancos com os índios hoje?

A. K. – Acompanhando a história do Brasil até a Constituinte de 1988, não só em Minas, mas no Brasil inteiro, a perspectiva do Estado brasileiro era acabar com índio. Só que na Constituinte houve uma grande pressão para mudar essa política.

Esse negócio de a literatura dizer que os “Botocudo” eram antropófagos é um ato falho, é um truque da má consciência neobrasileira formadora do Brasil. Eles tinham de dizer que minha gente era antropófaga para nos aniquilarem. Participei na Constituinte de 1988 pintando a cara de preto no Congresso Nacional. Estava com 36 anos de idade quando fiz aquilo. Fui defender a emenda popular, pois não se defendia o artigo 231 da Constituição porque ele afirma que o Brasil precisa parar de matar índio e assegurar os direitos para os índios restantes.

Isso tudo foi uma ruptura com o que havia acontecido no passado. Mudança que o Estado não conseguiu assimilar até hoje, pois o Estado ainda tem cacoetes. O Estado parece uma daquelas feras que ficam mansas, mas, de vez em quando, ainda comem alguém. Ainda agora há os pit bulls soltos lá em Roraima. Eles se esquecem de que há uma Constituição. Mas o ministro do Supremo Tribunal Federal lembrou muito bem em seu voto, dizendo: “Tirem os dentes, tirem as presas”. O que aconteceu da Constituinte para cá foi um fenômeno fantástico, o surgimento de nova identidade.

No século XX, em Minas Gerais, se dizia que não havia mais índios, ou que no máximo havia “Botocudo” sobreviventes e Maxacali (aqueles de Mucuri, de Santa Helena e Bertópolis). Esses Maxacali são um fenômeno impressionante, pois não se aculturaram. Você chega numa aldeia maxacali e eles estão falando a língua deles, vivendo na religião deles, vivendo no mundo deles. Pelo menos nos últimos duzentos anos ficaram isolados. Tempos atrás estiveram em Diamantina e em outras regiões, no Jequitinhonha. Mas, nos últimos duzentos anos, fizeram um movimento e se fixaram nessa região do Mucuri. Eram inimigos preferenciais dos “Botocudo”. Quando não havia branco para brigar, os “Botocudo” brigavam com os Maxacali. O que resultava em roubo de mulheres de um lado e do outro. Logo, nós somos parentes, somos parentes porque nossos grupos guerreavam e tomavam crianças uns dos outros, e mulheres uns dos outros.

M. A. T. C. – O que vocês têm feito pelos índios? Qual o resultado desse trabalho?

A. K. – O que dá resultado é tratar esse conjunto de famílias tribais, remanescentes desses povos – Xacriabá, Maxacali e inclusive dos que migraram para cá vindos do Nordeste, Pataxó, Xukuru-Kariri, Pacararu, além dos nativos Aranã e Kaxixó – como cidadãos que têm direito à proteção do Estado, sem discriminação. Eles têm direito às políticas públicas no sentido de atendimento às mães, quanto ao nascimento de seus filhinhos, o pré-natal e o acompanhamento dessas mães até que a criança faça cinco anos de idade. Têm direito à alimentação. Deve-se respeitar o direito dos índios de continuar morando em casa de palha que fizeram, dando a eles e elas a oportunidade de, se quiserem, ter uma habitação adequada. Porque não admito que arranquem um costume, que é próprio de uma família indígena, para botá-la num conjuntinho residencial do Banco Nacional de Habitação (BNH).

A gente não tem povo indígena vivendo num apartamento do BNH , em Minas Gerais, pois temos nos esforçado para arrecadar terras públicas, seja terra da União seja terra do Estado, para criar assentamentos adequados para atender às necessidades dessas famílias indígenas. Uma família indígena reduzida a 200 ou 300 indivíduos não quer viver nos fundos de uma fazenda, hostilizada por pecuaristas ou por garimpeiros. Ela sente a necessidade de estar num lugar mais parecido com essas unidades de conservação, num parque ou numa unidade biológica.

Estamos argumentando no sentido de que os índios possam ter acesso a um lugar desse tipo e que o Estado crie os instrumentos para que eles possam viver desse modo, não agredidos pelo município ou pelos vizinhos. Isso deve ser feito através das secretarias de Estado, como as da Saúde, do Meio Ambiente, de Agricultura ou de Bem-Estar Social. Programas públicos para realizarem ações que atendam a questões como água potável, para eles pararem de beber água de córrego que está envenenada com agrotóxico, com esgoto, com detritos de todo tipo.

A água do Rio Doce está muito ruim. No meio dela há partículas de mercúrio, bauxita e outros minérios pesados, fora os resíduos jogados no Rio Doce pelos municípios, desde o Rio Piracicaba. Quando a gente toma banho, sai bronzeado, mineralizado. Num seminário no médio Rio Doce acusei os municípios de serem responsáveis por jogarem detritos no rio. Uma pessoa se levantou e disse: “Em Ipatinga não se faz mais isso, pois tratamos de nossa água, antes de jogá-la no Rio Doce”. Ora, mas, em Governador Valadares, jogam restos de hospital, sofás velhos, televisões e até geladeiras dentro do rio. Todo mundo na beira do Watu (nome que os índios dão ao Rio Doce) acha que ele é o depósito de todos seus restos.

M. A. T. C. – Qual a sua atuação e sua relação com o governo de Minas Gerais?

A. K. – O governador Aécio Neves me perguntou: “O que dá pra fazer pelos índios?”. Respondi: “Podemos fazer o que Guido Marlière fazia quando cuidou da questão dos índios, no gabinete militar do Império”. Então, desde 2003, o governador me deu um mandato, de assessor especial para assuntos indígenas. Sou vinculado à Secretaria de Governo. Ele me disse então: “Você vai criar o programa para inclusão social dos que ainda restam de povo indígena no nosso Estado, porque não queremos que sejam aniquilados e desapareçam”.

Assim, de certa maneira, a guerra contra os índios em Minas Gerais só parou com o governador Aécio Neves. O governador me perguntou se teria sentido criar uma Secretaria de Assuntos Indígenas. Respondi que em Minas não há uma população indígena que justifique a criação de uma Secretaria de Estado. Assim, propus fazer meu trabalho no gabinete dele. Disse-me que, então, eu deveria trabalhar em nível de igualdade com qualquer secretário. Empossou-me e avisou aos demais secretários para colaborarem comigo, a fim de cumprir minha missão. O objetivo é trabalhar para que em Minas sejam respeitados os direitos humanos e sociais dos índios.

Tenho, portanto, o compromisso de agir assim até 2010. Nosso propósito é criar um Centro de Referência da Cultura Indígena e um Memorial Indígena, na Serra do Cipó, um sítio que se chamará Monumento Natural da Mãe D’Água. O Instituto Estadual da Floresta, junto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), está demarcando esse sítio. É cheio de grutas, cavernas e sítios arqueológicos da maior relevância. Dentro desse memorial vamos recolher o acervo que foi para a Rússia, a fim de resgatarmos cem anos da cultura material dos “Botocudo”. Eles são os primeiros registros das escritas fonéticas de “Botocudo” gravados por essa expedição russa. Em torno desse acervo deveremos ter um espaço para a formação de jovens indígenas, a fim de administrar seus territórios, tendo em vista sua educação e saúde, além de outros objetivos.

Reporter Alessandra Morandi

junho 18, 2009
Duas crianças da comunidade de Tabuleiro

Duas crianças da comunidade de Tabuleiro

Entrevista com Flora Sousa Pidner

junho 18, 2009

Aos 25 anos de idade, Flora Sousa Pidner dá aula de Geografia para a sétima série do ensino fundamental e para o primeiro ano do ensino médio, no Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte. Atualmente, além de lecionar em uma das mais respeitadas instituições de ensino da capital mineira, Flora está fazendo um mestrado em sua área, a Geografia. A seguir, confiram uma entrevista com essa jovem que, mesmo aos 25 anos, demonstra ser um nome promissor do campo que escolheu. Entre os temas estão o ensino da Geografia no Brasil, as ligações dessa ciência com a Antropologia e o papel da imprensa ao abordar esses campos do conhecimento.

– Fale um pouco das ligações entre Antropologia e Geografia. Qual a importância dos trabalhos etnográficos?

Historicamente, a ciência constitui um pilar da modernidade. Antes do tempo moderno não havia uma divisão do saber, além disso, a filosofia era o pilar do conhecimento ocidental. Algumas mudanças ocorreram na modernidade. Dentre elas, uma mudança significativa foi a criação do que denominamos ciência. Um dos paradigmas da ciência moderna é a sua fragmentação em disciplinas. Tal fragmentação pretende definir limites teóricos entre as disciplinas, fundamentados em um objeto e um método de estudo. Dessa forma, cada disciplina teria um objeto próprio e um método próprio de estudo, como se houvessem territórios dentro da ciência. Os cientistas que representam uma disciplina devem ficar enclausurados em seu território, sob o risco de serem considerados invasores, caso não respeitassem tal paradigma.

Já há uma literatura densa que aborda criticamente essa questão. Um dos argumentos críticos se refere à impossibilidade de se produzir conhecimento na ausência de contato entre as disciplinas e, mais do que isso, na ausência de diálogo entre os conhecimentos científicos e os não-científicos, chamados de saberes populares ou locais. A Geografia e a Antropologia estão inseridas nesse contexto. Desse modo, refletir sobre questões consideradas geográficas demanda uma reflexão integrada de outros temas, tais como os que são considerados antropológicos. Como discutir a produção do espaço sem trabalhar o viés etnográfico que compõe o espaço, que dá significados aos lugares, aos territórios, às regiões e até mesmo às cidades? Ao mesmo tempo, como produzir pesquisas etnográficas sem pensar a dimensão espacial que participa da vida social? Para mim, desconsiderar essa relação é uma forma de empobrecer a produção do saber.

– Como professora dos ensinos médio e fundamental, como você enxerga a abordagem nas escolas da área da Geografia que se vincula à Antropologia, aos trabalhos de campo?

Acredito que essa abordagem ainda ocorre de maneira superficial. Essa superficialidade também está presente nos livros didáticos de Geografia. Os temas proposto pelos programas de curso e pelos livros são, ainda, os temas tradicionais da Geografia, que não englobam questões antropológicas. Quando a Antropologia é abordada, é comum existir uma redução da antropologia aos temas indígenas. É claro que se trata de um tema de grande relevância, entretanto, não é o único que se refere a Antropologia nem o mais ou menos importante.

Algumas mudanças têm ocorrido, principalmente por parte de professores que valorizam o contato entre Geografia e Antropologia e ainda inserem as questões históricas em que essa relação se fundamenta. Entretanto, algumas questões burocráticas dificultam esse tipo de trabalho, sobretudo quando se refere aos trabalhos de campo. Dentre as questões burocráticas, acredito que o tempo, normalmente reduzido, das aulas de Geografia e a cobrança pelo cumprimento de um programa pré-estabelecido são as principais dificuldades encontradas pelos professores.

– Você acredita que a imprensa faz um bom trabalho aplicando a Geografia e a Antropologia em suas coberturas? Quais as conseqüências na sociedade do papel midiático nesse aspecto?

A mídia é um conceito amplo, que engloba uma infinidade de instrumentos, tanto de produção quanto de distribuição de informações. Desse modo, é importante não fazer uma colocação generalista.  Acredito que existem tratamentos extremamente pobres no que se refere à realidade social. Esse trabalho empobrecido está relacionado, sobretudo, ao tratamento unilateral das questões, focalizando uma única forma de ver o tema. Para exemplificar, é comum que ao lidar com as questões de um tema polêmico, que envolve conflitos, apenas um lado exponha as suas concepções, às vezes sendo os únicos a serem entrevistados. Tal tratamento é mais freqüente nos representantes da mídia que possuem uma maior influência na produção de opiniões da sociedade brasileira. Ou seja, a principal conseqüência na sociedade do papel midiático é o empobrecimento das opiniões, que são constituídas de forma unilateral e, assim, carregadas de preconceitos. Esse viés midiático acaba servindo à reprodução do que está estabelecido socialmente, ou seja, o status quo.

Como falar sobre um conflito de terras, por exemplo, focalizando o olhar do latifundiário? Tal conflito se relaciona a contextos históricos tal como a distribuição concentrada de terras no Brasil, a exploração econômica do trabalhador do campo, a marginalização social do negro e do índio, expulsos da terra, sua fonte de sobrevivência. Entretanto, os contextos históricos e sociais, assim como as questões antropológicas e geográficas envolvidas não são frequentemente abordadas. Para dar outro exemplo, já se torna comum entre os brasileiros a seguinte frase propagada pela mídia: “é muita terra para pouco índio”. Entretanto, não se considera as características etnográficas das nações indígenas, assim como não se vê um questionamento sobre os grandes latifúndios, que representam “muita terra para um branco e sua família”.

Para que não se faça uma generalização da mídia, é preciso dizer que é possível buscar outras fontes de informação que trazem outros olhares, outras concepções, outros tratamentos para a questão. A mídia não se reduz aos seus representantes com maior força econômica.

Série de entrevistas e relatórios: reporter Carlos Eduardo Doné

Entrevista com Lucas Zenha Antonino

junho 18, 2009


Lucas Zenha Antonino tem 24 anos e está no sétimo período do curso de Geografia da PUC/Minas. Mesmo antes de se formar foi efetivado no estágio que fazia, e hoje trabalha como técnico do PCPR (Projeto de Combate à Pobreza Rural do Estado de Minas Gerais), além de ser monitor do colégio Dom Cabral, onde já foi professor substituto. No currículo desse jovem se encontram vários trabalhos de campo, feitos em âmbito profissional e acadêmico, que lhe possibilitaram conhecer de perto algumas tribos indígenas, comunidades que vivem isoladas, e integrantes do grupo MST. Confira agora uma entrevista com Lucas, que será dividida em duas partes. Entre os tópicos tratados estão a importância dos trabalhos etnográficos, o ensino da Geografia no Brasil, e as relações entre Antropologia e Jornalismo.

É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.Lucas Zenha à beira do rio São Francisco, no município de Pedras de Paria da Cruz

– Você já fez vários trabalhos entrelaçados com a Antropologia. Fale um pouco da relação entre essa ciência e a geografia. Os pontos em comum, os enriquecimentos que uma traz à outra.

A geografia, na realidade, é uma área que se relaciona com várias outras. Alguns geógrafos chegam a brincar que os profissionais dessa área sabem um pouco de muitos setores, caracterizando-a como generalista. Com a Antropologia, uma das relações se encontra nos trabalhos de campo. Os Antropólogos, ao estudarem o homem, têm de fazer essa atividade, que nós, Geógrafos, fazemos para analisar condições sócio-econômicas, e até mesmo para realizar planejamentos agrários. As duas áreas trocam enriquecimentos na medida em que os olhares desses profissionais, apesar de terem coisas em comum, têm também suas diferenças, oriunda de objetivos e formações distintas.

– Nos seus trabalhos de campo qual foi sua função e qual foi o papel do Antropólogo? Existem muitas diferenças no conteúdo e no modo de autuação desses dois profissionais?

Já fiz vários trabalhos de campo, e apenas um teve a participação de Antropólogo. Nessa ocasião, trabalhamos bastante juntos, mas o Antropólogo envolvido, por ser mais experiente do que eu, tinha uma percepção melhor para entender o comportamento, os hábitos dos indígenas. Nós dois nos ajudamos no estudo da comunidade, mas como disse, ele era o orientador principal do plano que visava observar a comunidade, em vários aspectos, que vão da história aos hábitos, dos valores ao comportamento.

– Você acredita que a formação acadêmica dos antropólogos e dos geógrafos são diferentes no sentido de tornar não recomendável que um desses profissionais faça trabalhos supostamente ligados a alçada do outro? Fale um pouco da formação acadêmica nesses dois setores.

Não conheço o curso de Antropologia profundamente para opinar. Pelos trabalhos que já fiz direta ou indiretamente com pessoas dessa área, sempre as julguei competentes para realizar as atividades para as quais estavam designadas. Na minha graduação tive Antropologia Cultural, que foi muito útil. Como falei, nas atividades que já presenciei Antropólogos e Geógrafos trabalhando em conjunto, os profissionais de ambas as áreas tinham capacidade para fazer as tarefas, que muitas vezes eram as mesmas, e quase sempre bem parecidas.

– Qual a importância dos trabalhos de campo? Que descobertas esse tipo de atividade te trouxe? Quais os aspectos que só podem ser apreendidos através desses trabalhos?

O importante desses trabalhos é a vivência direta. Algumas coisas só podem ser entendidas assim, e outras são melhor apreendidas dessa maneira. Conhecer hábitos, comportamentos, ver as pessoas e os locais de perto, é fundamental para vários trabalhos, para compreender o ser humano e os grupos.

– Fale um pouco de seus trabalhos de campo. Quais as curiosidades, os aspectos mais interessantes que você descobriu? Existem muitas diferenças entre os grupos com os quais você conviveu e a sociedade chamada de convencional? Quais são elas?

Os aspectos interessantes estão na própria visão de realidades diferentes do que estamos acostumados a ver. Os valores, os trabalhos, os hábitos, várias vezes estive em comunidades completamente diferentes da chamada sociedade convencional nesses aspectos. Comer a comida deles, vivenciar os rituais, as práticas de trabalho, tudo é enriquecedor, e às vezes, bem distinto. O MST, por exemplo, tem vários gritos e cantos que mostram na pele a questão da luta por melhores condições. Os índios quase sempre antes de iniciarem as conversas têm rituais para abençoar o local. Os Quilombolas possuem tradições antigas de agroecologia, como por exemplo, a não utilização de fertilizantes. Enfim, são muitas as peculiaridades, e entre os próprios grupos que já visitei são muitas as diferenças.

– Em temos de valores, hábitos, ética, comportamento e história, fale das características desses grupos.

Já visitei muitos grupos tidos como tradicionais. Uma coisa em comum a quase todos eles é a história de vida complicada, marcada pela pobreza. Outro aspecto que via bastante é a diferença com relação aos hábitos da nossa sociedade contemporânea. A simplicidade da vida desses indivíduos, que por exemplo, não costumam ter o forte apego a aparelhos eletrônicos, é um ponto nessa linha. Em termos de hábitos, de ética e de outras coisas, as características entre eles variam muito.

– Quais são as questões que você acredita que constroem o ser humano e as sociedades? Qual seria o papel da história, do convívio, do meio social, da Biologia e de outros aspectos? Como eles atual?

O seu humano e as sociedade são construídas, na minha opinião, pela união de todos esse fatores citados por você, que atuam em conjunto. Todos eles têm extrema importância.

– O ser humano de um modo geral tem muita dificuldade para lidar com o diferente. O entendimento entre grupos com hábitos e histórias díspares costuma ser bastante difícil. Como os grupos com os quais você conviveu vêem a “sociedade convencional”? Como eles acham que são vistos por ela? Há um sentimento de incompreensão? Como você acredita que o mundo “civilizado” enxerga essas pessoas e os grupos que vivem de maneiras distintas? Há uma empatia entre os grupos “marginalizados”?

De forma geral eles se sentem incompreendidos pela sociedade convencional, acreditando que a última os vê como pessoas atrasadas, e até mal-educadas. Alguns grupos têm certa hostilidade com pessoas de fora, o que passa por questões históricas, por sofrimentos passados por eles. Boa parte da sociedade convencional tem preconceitos contra índios e grupos que vivem de modo distinto, e não os conhece, não tem informações para julgá-los com o mínimo de conhecimento. A empatia entre os grupos chamados de minorias existe em alguns casos. Entre tribos indígenas, por exemplo, é muito comum um sentimento de amizade, de confraternização.

– Quais as diferenças entre esses grupos que você visitou e entre as experiências vividas? Os métodos utilizados foram diferentes? Como eles são decididos? Há muito espaço para improviso nesse sentido?

Existe um planejamento, mas ele agrega certa flexibilidade, inclusive, porque às vezes não sabemos como vamos ser recebidos. Quanto às experiências e aos métodos existem muitas coisas em comum, como por exemplo, um jeito de se comportar para passar aquela fase de desconfiança. No entanto, algumas diferenças na maneira de agir e nas experiências podem ocorrer, em função, entre outras coisas, dos hábitos peculiares de cada grupo.

– Como estudante de Geografia, como você acha que esse setor dessa ciência é tratado na Universidade, em termos quantitativos e qualitativos? A realidade vigente está muito distante do ideal? Como você acha que essa área deveria ser ensinada?

O trabalho de campo vai além da Universidade, que ensina algumas coisas, dá algumas oportunidades, mas deixa um pouco a desejar nesse aspecto. Em encontros de Geografia, seminários e coisas do tipo, quase sempre são feitos trabalhos de campo, o que é muito bom para nós. Para melhorar, um bom passo seria as escolas darem mais espaço para essa área.

– Como assistente, monitor e professor substituto você já trabalhou no ensino médio e no fundamental. Fale sobre o ensino da Geografia nas escolas em geral e naquelas que você trabalhou. Como é a divisão entre as diferentes áreas dessa ciência, em termos de quantidade e qualidade? Quais são os defeitos, os problemas, como deve ser esse ensino e o que deve ser feito para chegarmos lá? Há esperança?

A Geografia não é tratada, na maioria dos casos, com a importância que deveria, o que passa pelas instituições e pelos alunos. Uma das coisas que deveriam ser feitas para aperfeiçoar o ensino é o estabelecimento de relações entre aspectos globais e do cotidiano dos alunos, com o objetivo de melhorar o interesse e a compreensão dos estudantes. Quanto à divisão de áreas posso dizer que conteúdos diferentes são abordados. São tantos os setores da Geografia que fica difícil falar mais precisamente dessa distribuição de conteúdo. Em geral, pode-se afirmar que todos recebem alguma atenção.

– No que tange à quantidade e à qualidade do ensino da Geografia no ensino fundamental e no médio, nas áreas especifica que tratamos, que flertam com a Antropologia, qual é o cenário? Como ele deveria ser e como fazer para que haja melhora?

Essa parte da Geografia não é muita tratada nos colégios, recebendo pouca atenção, embora isso varie de acordo com a instituição e o professor. Seria importante dar mais espaço para essa área, pois é fundamental compreendermos o diferente, acabarmos com os preconceitos muitas vezes enraizados nos meninos, que já crescem ouvindo aquelas mesmas história e julgamentos errados.

– Você já fez trabalhos em Universidades fora de BH e já se informou sobre instituições de ensino superior estrangeiras? Quais as diferenças entre elas e as instituições mineiras, em todos os aspectos tratados por nós?

Entre as instituições mineiras vejo muitas semelhanças. Na verdade, acredito que o interesse e a dedicação do aluno são muito importantes e fazem diferença no proveito do curso. Com relação a instituições de outros estados posso falar que a USP e a federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, possuem estruturas e corpos docentes mais qualificados, investindo mais na formação do aluno. Em Santa Maria, por exemplo, a graduação dura quase sete anos. Quanto a instituições do exterior, digo que não as conheço com profundidade, mas por algumas leituras, acredito que França e Alemanha têm boas escolas.

– Como você acha que os jornalistas tratam e aplicam os ensinamentos e os métodos da Antropologia e da Geografia? Quais são as conseqüências disso? Como deveria ser a abordagem jornalística, e qual a importância das ciências citadas nessa área? Existem exceções em termos de qualidade no uso da Antropologia e da Geografia dentro do jornalismo?

Nunca estudei esse assunto a fundo, mas pelo o que vejo, o jornalismo trata e aplica muito mal essas áreas, o que gera más informações, intolerância e fomenta o preconceito. A abordagem tinha que ser mais cuidadosa, qualificada, tendo o critério de comparecer aos lugares, de conhecer culturas diferentes, pois essas ciências são importantíssimas para o real conhecimento do outro, do diferente. A única exceção que lembro de cabeça agora, quanto à qualidade da análise antropológica, é uma reportagem feita pela Rede Minas falando sobre índios, que ouviu especialistas, não caiu em clichês e se mostrou correta. Com certeza existem outras, mas agora só lembro dessa.

– Como a população vê e aplica essas ciências? Como ela absorve o trabalho jornalístico, que tem as características traçadas acima?

A população em geral não conhece essas ciências, não chegando a vê-las corretamente, nem a aplicá-las. Os preconceitos mencionados acima se vinculam a isso. Quanto à absorção do trabalho da imprensa, acredito que as pessoas engolem muito fácil o que é dito pelos veículos, o que contribui para um cenário de intolerância e desconhecimento.  

– Com a Internet e a crise financeira de empresas midiáticas, o número de pessoas que escreve sem comparecer aos lugares indicados aumentou. Quais as conseqüências disso? Como era essa questão antes da Internet?

Não sei muito sobre esse assunto, mas pelo o que converso com amigos jornalistas, o cenário já era ruim antes, e apenas piorou agora. As conseqüências se entrelaçam com o que já foi falado: desconhecimento, intolerância e por aí vai.

– A Antropologia e a Geografia deveriam ser melhor abordadas nos cursos de jornalismo? Como deveria ser essa interação entre áreas diversas? Em uma era estritamente técnica e voltada ao mercado, há possibilidade disso ser feito?

Não sei a respeito da possibilidade de ser feito, mas acredito que nas ciências humanas em geral deveria haver mais interação entre as áreas. O jornalista, o advogado não precisam ser mestres em Antropologia, mas essas ciências deveriam ser melhor abordadas nesses e em outros cursos, pela compreensão de um raciocínio, do homem, da sociedade.

– A imprensa tem enorme influência na sociedade, sendo chamada, inclusive, de quarto poder. Tendo em vista que ela fala sobre povos sem o estudo e o embasamento necessários, você acredita que esses equívocos podem motivar guerras?

Podem motivar guerra sim, embora conflitos em larga escala sejam complicados demais, e envolvam várias causas.

– Cite exemplos positivos e negativos do uso na imprensa da Antropologia e da Geografia. Você acredita que os equívocos mencionados ocorrem mais na abordagem de fatos ou em reportagens, artigos? Há diferenças nas conseqüências causadas pelo conteúdo factual e pelo opinativo? Quais são elas? Como melhorar em ambos os lados?

Exemplo positivo lembro daquele da reportagem da Rede Minas. Entre os negativos, um que sempre vem a minha mente é o modo como o MST é tratado. Já fiz trabalho etnográfico com eles. Existem problemas, críticas a serem feitas, mas colocá-los sempre como vândalos é um erro. Quanto às outras perguntas não posso responder, não pensei sobre o assunto, mas acredito que tanto conteúdos factuais quanto os opinativos tenham poder perante os leitores. As conseqüências deles dependem de outras variáveis.

– Como você acha que são os investimentos em Antropologia, em Geografia e em Etnologia, nas iniciativas pública e privada? Quais poderiam ser as melhoras?

Existem alguns investimentos, mas pela importância das áreas deveria haver mais.

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Lucas Zenha em Ouro Verde de Minas, onde visitou a comunidade Quilombola Água Preta de Cima, para trabalho etnográfico

Reporter Carlos Eduardo Doné

Trabalhos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos

junho 18, 2009

Apresentaremos a seguir trechos de um relatório que inclui estudos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos. Com isso, nossos leitores poderão ver como funcionam trabalhos desses campos, que de várias maneiras, se entrelaçam. Nesse caso específico, o relatório em questão faz parte de um projeto que visa beneficiar comunidades indígenas. O texto produzido inclui, entre outras coisas, os objetivos da iniciativa, a descrição dos grupos envolvidos, o resultado de trabalhos de campo, e de análises feitas por outras vias. Ao mostrar essas passagens, nosso leitor entra em contato com produções antropológicas, geográficas, sociológicas e etnográficas em âmbito profissional, e, além disso, percebe como essas ciências são utilizadas em projetos governamentais e humanitários, em prol de grupos diversos.

O projeto em questão faz parte do PCPR/MG – Projeto de Combate à Pobreza Rural do Estado de Minas Gerais -, que é uma iniciativa desenvolvida pelo Governo de Minas Gerais com apoio do banco mundial. Seu objetivo é promover ações para aliviar a pobreza de comunidades do Norte e Nordeste de Minas. O relatório do qual foram tirados os trechos que serão postados faz parte de apenas uma das iniciativas do PCPR/MG, que promove outros tipos de ações, e visa ajudar outros grupos.

Nos dias 18 e 19 de Março desse ano foi realizado um seminário com o objetivo de disseminar a idéia do plano de ajuda à população indígena, requisito obrigatório estipulado pelo Banco Mundial para suas políticas operacionais. Nesse evento, a tribo Xakriabá, que já havia sido auxiliada com algumas ações, compareceu para relatar experiências a respeito dessas iniciativas, que em breve, de acordo com membros do projeto, trarão benefícios para as outras etnias citadas nesse documento.

Desde já, a equipe do nosso blog agradece a inestimável contribuição de Lucas Zenha Antonino, Geógrafo e técnico do Idene que participou da elaboração do relatório do qual foram tirados os trechos publicados por nós. Através de documentos e entrevistas, ele foi a fonte principal desse nosso trabalho. A seguir, dividiremos, em quatro posts separados, trechos que fazem parte do projeto em tela. No primeiro post, haverá explicações sobre o projeto que utilizou os estudos multidisciplinares descritos, sendo interessante o leitor observar como funciona um relatório ligado a um projeto governamental que visa ajudar comunidades indígenas; notar que esse objetivo foi prometido, e que teoricamente, está na pauta dos governantes, devendo a população fiscalizar o cumprimento do que está estabelecido; e por fim, verificar alguns estudos e informações prévias sobre os índios em Minas Gerais, suas histórias e alguns dados que os cercam, o que, em si, é uma informação ligada à nossa área, constituindo também, um reflexo de relatórios oficiais do setor. O segundo post segue a mesma linha. O terceiro e o quarto post são trabalhos etnográficos feitos por equipes multidisciplinares, valendo pelo conhecimento das tribos e de como são realizados esses relatórios, em termos profissionais. Bom proveito!

Trechos do Sumário Executivo do Projeto do PCPR (Projeto de Combate à Pobreza Rural do Estado de Minas Gerais) descrito no post “Trabalhos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos”

junho 18, 2009

Explicações sobre o projeto que utilizou os estudos multidisciplinares descritos no post “Trabalhos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos”, trecho de relatório ligado a trabalho vinculado ao governo e informações sobre índios em Minas Gerais

“O objetivo do Plano de Participação das Populações Indígenas é contribuir para aprofundar ao processo de inclusão social das comunidades indígenas, respeitando sua identidade cultural, no Projeto de Combate à Pobreza Rural (PCPR/MG 2ª. Fase). Sua elaboração responde à Política Operacional 4.10 do Banco Mundial e foi completada após a realização de um seminário de consulta pública que reuniu 22 lideranças indígenas das etnias Aranã, Maxakali, Pankararu, Pataxó e Xakriabá em que se acordaram os princípios gerais a serem seguidos na estratégia para promoção da participação das populações indígenas no projeto”. “A população indígena de Minas Gerais é formada basicamente por seis etnias indígenas: Xakriabá, Krenak, Maxacali, Pataxó, Pankararu e Aranã. A valorização dos povos indígenas dentro das ações do PCPR/MG permitirá que estas comunidades se mobilizem e priorizem de forma participativa suas demandas, em prol do bem-estar coletivo. Espera-se que a execução de subprojetos comunitários do PCPR/MG em áreas indígenas contribuam para: minimizar as deficiências dos serviços básicos de saneamento e abastecimento d’água, melhorar as condições gerais de saúde e a qualidade de vida das populações indígenas; aumentar e diversificar a capacidade produtiva, sua produção agrícola e artesanal, contribuindo para garantir sua segurança alimentar e reduzir sua vulnerabilidade social; reduzir o impacto negativo sobre o meio ambiente das atividades econômicas de exploração dos recursos vegetais e hídricos que constituem a principal alternativa de geração de renda disponível nas terras indígenas; potencializar o impacto de diversas intervenções públicas, por meio da integração em nível local e da busca da complementaridade de seus investimentos (especialmente a das ações e políticas públicas coordenadas e geridas pelo IDENE); ampliar os canais de diálogo e entendimento entre as populações indígenas e a sociedade regional; e aumentar seu capital social”.

Trechos da apresentação do projeto do PCPR (Projeto de Combate à Pobreza Rural do Estado de Minas Gerais) descrito no post “Trabalhos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos”

junho 18, 2009

Explicações sobre o projeto que utilizou os estudos multidisciplinares descritos no post Trabalhos Antropológicos, Etnográficos, Sociológicos e Geográficos, trecho de relatório ligado a trabalho vinculado ao governo e informações sobre índios em Minas Gerais

“ O documento ora apresentado, Plano de Participação das Populações Indígenas – PPPI visa compreender o universo das comunidades indígenas que pertencem à área de atuação do Projeto de Combate à Pobreza Rural de Minas Gerais – PCPR, dentro de um contexto histórico, socioeconômico, cultural, político ambiental, como também se constitui em um instrumento de apoio, promovendo o desenvolvimento sustentável destes grupos socialmente excluídos para o exercício da cidadania. O objetivo do PPPI é contribuir no processo de inclusão social das comunidades indígenas, respeitando sua identidade cultural. A proposta do PCPR/MG é, portanto, ampliar o apoio às comunidades indígenas, por meio de uma ação articulada com os demais programas e projetos que vêm sendo desenvolvidos por organizações governamentais e não governamentais. Ao desenvolver a estratégia de participação dessas populações, é necessário atentar para o arcabouço jurídico e institucional e considerar experiências anteriores de projetos já implantados nessas comunidades.”

Outros trechos do mesmo projeto

“A população indígena de Minas Gerais é formada basicamente por seis etnias indígenas: Xakriabá, Krenak, Maxacali, Pataxó, Pankararu e Aranã. Esses grupos, que ainda sobrevivem em algumas reservas, continuam a praticar seus cultos e atividades tradicionais, ainda preservam usos e costumes, apresentam-se em um nível de pobreza elevado e com altos índices de doenças, em precárias condições habitacionais, sofrem muita pressão de fazendeiros e recebem pouca assistência dos governos e da sociedade”. “Desde os primeiros encontros com o europeu, o indígena foi submetido à catequese, indispensável à sua “salvação”. O objetivo era a assimilação da língua e costumes do colonizador e, nesse processo, perderam-se tradições consideradas inferiores ou “imorais”. Foram apenas reconhecidos como os primeiros naturais senhores da terra, hoje território denominado Brasil, na constituição de 1988, porém, até os dias atuais várias etnias passam por várias dificuldades, inclusive a de reconhecimento. A legislação indigenista brasileira é uma das melhores do mundo. Falta concretiza-la, sair da teoria”.

“O caminho parece ser o entendimento do “outro”.

Precisamos aprender a ver o outro com seus costumes e tradições, respeitando-o em seu espaço físico e cultural. E é preciso não apenas ver, mas reparar, pois, esse é um nível superior de percepção.” (José Saramago)

Povo Maxakali

junho 18, 2009

OBS: Esta seção está baseada no verbete “Maxakali”, da Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil, de autoria da antropóloga Maria Hilda Baqueiro Paraíso, do Instituto Socioambiental (ISA), e disponível através do site da Web dos Povos Indígenas no Brasil: link

<http://pib.socioambiental.org/pt/povo/maxakali>.

“Atualmente cerca de 1470 remanescentes dos Maxakali vivem em duas áreas indígenas – Água Boa e Pradinho – que estão unificadas na Terra Indígena Maxakali (5.293 hectares) e em aldeamentos compostos por grupos extensos de parentescos que foram criadas há cerca de três anos em função do processo de cisão e faccionalismo que é próprio à organização política do grupo Maxakali nos municípios de Ladainha e Teófilo Otoni. A aldeia de Água Boa possui uma população de 664 habitantes, oriundos de 180 famílias, que se subdividem em 21 agrupamentos. Já a aldeia de Padrinho conta com 590 habitantes, pertencentes a 145 famílias, que se subdividem nas aldeias autodenominadas de Vila Nova e Cachoeirinha. No município de Ladainha, situa-se a Aldeia Verde, onde 131 pessoas ocupam área recentemente adquirida pela FUNAI com 523 hectares. E no município de Teófilo Otoni, encontra-se a Aldeia Topázio, onde 68 pessoas ocupam área de 602 hectares recentemente adquirida pela FUNAI. A terra indígena Maxakali situa-se nas cabeceiras do rio Umburanas, município de Bertópolis, região do vale do Mucuri. Eles não podem ser identificados como um único grupo original, mas agregam diversos grupos pertencentes ao tronco lingüístico Macro-Jê (Pataxó, Monoxó, Amixokori, Kumanoxó, Kutatói, Malali, Makoní, Kopoxó, Kutaxó e Pañâme) que ocupavam uma área compreendida entre os rios Pardo e o Doce (sudeste da Bahia, nordeste de Minas Gerais e norte do Espírito Santo). De acordo com Baqueiro Paraíso, historicamente, a partir do final do século XVII, com a política colonial de conquista da área entre o litoral e as regiões de mineração, esses grupos se articularam politicamente como aliados numa confederação (Nakmenuk) para enfrentar a invasão sistemática de seus territórios e resistirem aos ataques dos grupos denominados Botocudos. Com exceção dos Pataxó, esses diversos grupos optaram por uma política de aliança com a sociedade colonial, aceitaram o aldeamento compulsório e participaram como trabalhadores e soldados da guerra justa defensiva e ofensiva aos Botocudos decretada pelas Cartas Régias de 1808. Em 1911 restavam dois aldeamentos e sete pequenas aldeias no Vale do Jequitinhonha. Em 1917, os Maxakali já se concentravam na bacia do rio Umburanas. Os conflitos com a população regional continuavam. Em 1920 foram transferidos para terras cedidas pelo Estado de Minas Gerais, mas, em decorrência de epidemias e muitas insatisfações, os Maxakali decidiram retornar à região do Umburanas. Em 1940 estabeleceu-se o Posto Indígena Água Boa. Em 1956 instalou-se o Posto Indígena Pradinho Os dois Posto ficaram, entretanto, isolados por um corredor de fazendas, que inviabilizava o contacto e os deslocamentos dos índios entre as duas áreas e agravava os conflitos com os fazendeiros. As áreas foram reunificadas em 1996 com a homologação da Terra Indígena Maxakali, a indenização e o desintrusamento do corredor de fazendas entre os dois postos. Em 1966 foiformada a “Guarda Rural Indígena” (GRIN) com as atribuições de manter a ordem interna nas aldeias, coibir os deslocamentos dos índios, impor trabalhos e denunciar os infratores ao Destacamento da Polícia Militar. A GRIN funcionou até 1974, período em que serviu para desarticular a resistência e oposição dos Maxakali à invasão de suas terras, beneficiando posseiros e invasores: corromper suas lideranças e exacerbar o faccionalismo interno instalar um clima de revolta entre os índios, levar ao abandono de suas roças,ao vício e à embriaguez constantes. Após sua extinção, seus membros recusaram-se a trabalhar e exigiram a continuação do pagamento de salários. Em termos de organização econômica, Baqueiro Paraíso destaca que os grupos originários dos Maxakali se caracterizavam como grupos seminômades, que viviam de atividades de caça e coleta e de uma agricultura incipiente. Assentados em Água Boa e Pradinho, os remanescentes dos Maxakali passaram a desenvolver uma agricultura incipiente – em grande medida em virtude da deterioração do ecossistema nos postos indígenas e da redução dos espaços disponíveis para a prática das atividades econômicas em virtude do crescimento do contingente populacional, a criação de animais de grande e pequeno porte. A demanda por bens de consumo que foram sendo introduzidos em seu cotidiano levou-os, também, a trabalharem eventualmente como assalariados nas fazendas vizinhas e a vender produtos silvestres, agrícolas e artesanais nas feiras de Batinga e Santa Helena de Minas. Todavia, eles consideram essas atividades pouco atrativas quer em decorrência da competição que seus produtos enfrentam no mercado regional, da discriminação que sofrem e de suas dificuldades em compreender as regras do mercado, quer porque ampliar o tempo dedicado às mesmas implicaria no abandono de práticas sociais muito valorizadas e fundamentais para a reprodução social e simbólica do grupo: as atividades rituais, a socialização das crianças e a confecção de objetos artesanais. Em conseqüência os Maxakali adotaram, tanto como atividade econômica quanto como manifestação política, às atividades de “caçar, pescar e coletar nas fazendas vizinhas” e de vagar e mendigar em cidades mineiras e baianas em busca de bens desejados em decorrência da introdução de novas necessidades de consumo que só podem suprir através do sistema de troca. Isto contribui para forjar estereótipos regionais que os classificam como preguiçosos, sujos, ladrões e bêbados; acirra sua marginalização social e sua exclusão da estrutura regional em que, a partir do contato, foram inseridos; e empurra-nos “para a mendicância, a frustração e a embriaguez por se sentirem incapazes de satisfazer suas aspirações de consumo e de reconhecimento social”. Já em termos de organização social, as pessoas são divididas em dois grandes grupos: os Xape – parentes ou aliados do grupo familiar de quem se espera solidariedade, bondade, consideração e respeito à propriedade – e Pukñog – os estranhos ou inimigos, de quem não se podem esperar as mesmas atitudes, mesmo que sejam parentes de gerações mais afastadas ou afins em potencial. O casamento preferencial ocorre com os Pukñog, como meio de reduzir tensões e conflitos. A regra de moradia é matrilocal e as famílias extensas se organizam em três unidades básicas: (a) o grupo doméstico, formado pelos membros de um número reduzido de famílias extensas (duas a cinco), vinculados por consangüinidade ou afinidade, liderados pelo homem mais velho ou, excepcionalmente, uma viúva e que podem se desagregar em caso de conflito; (b) o bando que inclui todos os parentes e engloba vários grupos domésticos em torno de um líder e um centro cerimonial, se caracteriza como unidade política e religiosa com denominação própria (em geral a dos grupos originários) e requer um número mínimo de membros para funcionar ou se extingue; e, (c) o povo Maxakali composto por todas as pessoas que compartilham língua, rituais e valores culturais, é reconhecido como tal, mas “não implica no exercício, como tal, de qualquer atividade ou posicionamento político de caráter coletivo”. Os Maxakali caracterizam-se, por conseguinte, por um alto grau de dispersão e pela propensão ao fracionamento como estratégia de resolução de conflitos internos, que interpõe distância entre os contendorese que se reverte quando se confrontam momentos de crise e conflitos externos. Descrevendo a situação dos Maxakali no final do século XX, Baqueiro Paraísoconclui que eles enfrentavam “o grande desafio de superarem as dificuldades decorrentes de sucessivas administrações autoritárias, o que se tem refletido nos graves problemas de embriaguez, desajustes sociais e marginalização econômica” e reporta que para enfrentá-lo tinham decidido adotar a estratégia do isolamento étnico. Quase uma década depois, sua economia continua voltada para a produção de pequenas roças de subsistência e o artesanato. Vendem ou trocam seus produtos por outros alimentos nas feiras das cidades vizinhas. E suas condições de sobrevivência continuam precárias. Dados referentes a 2005, apontam os elevados níveis de pobreza entre os Maxakali. 84,9% das famílias viviam em condição de pobreza extrema (renda mensal igual ou inferior a meio salário mínimo) e apenas 6,4% viviam acima da linha da pobreza. Uma parcela significativa da população Maxakali recebe recursos de programas e/ou benefícios governamentais. Dados obtidos junto ao Ministério do Desenvolvimento Social, à Prefeitura Municipal de Santa Helena e à Caixa Econômica Federal demonstram que cerca de 1/3 das famílias Maxakali estão cadastradas nos programas Bolsa Escola e Bolsa Família. Apesar de já ter a área demarcada de 5.293 hectares, o rápido crescimento populacional dos Maxakali nas últimas décadas (a saber, na década de 1940 a população Maxakali ficou reduzida a 59 pessoas) tem gerado uma situação de confinamento do povo. Sendo assim, existe a necessidade de revisão dos limites do território indígena Maxakali. O alcoolismo continua a ser um grave problema, sendo apontado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI/MG-ES) como a terceira principal causa de morte entre os integrantes dessa etnia, bem como um importante fator de impacto no coeficiente de mortalidade infantil que atingiu, em 2004, índice dez vezes maior do que o verificado na população nacional. Além dos danos à saúde, o álcool está associado diretamente aos demais problemas que têm dizimado o povo Maxakali: a miséria, a desnutrição infantil e a intensificação da violência intra-étnica, o que, em regra, resulta em graves lesões corporais e até homicídios. Os Maxakali continuam lutando por melhores condições de vida e estão engajados no processo de preservação e recuperação ambiental do seu território, reconstruindo o seu mundo simbólico e religioso”.